Um Programa Equivocado

Percorrendo os muitos canais por muitas vezes muito inúteis da TV a cabo instalada na minha casa encontrei algo que me prendeu a atenção. Era de manhã e estava passando uma reprise do programa Tribos, no Multishow, apresentado por uma bela e talentosa Daniele Suzuki. O maior motivo por eu parar neste canal não foi o charme nipônico-brasileiro (se é que existe este termo) da apresentadora, mas sim porque a “tribo” em pauta era a do Samba. E é aí que começa a minha contrariedade com o os equívocos tamanhos que a atração jovial cometeu.

Vamos ao programa.

Eis que eu o pego o bonde andando, pois quando chego no canal já está acontecendo uma entrevista com o rapper Marcelo D2. Tudo bem, um ídolo POP como ele, que conquistou uma legião de fãs falando de seu respeito pelo samba nas letras compostas ta legal, mas, convenhamos, o Marcelo D2 não pode ter autonomia para se postar como um porta-voz e defensor da bandeira do samba, o negócio dele é o movimento HIP-HOP, e pronto. Depois desse atentado, por incrível que pareça, continuei vendo o programinha. Da entrevista acontece um corte que vai para uma tomada noturna na Rua Men de Sá, na Lapa, consumida por esses bares nojentos que se autodenominam butiquins, ou Botequins como queiram seus donos, e um povo do qual eu nem preciso falar né.... malandros do posto 9 com suas sandalinhas rasteiras e meninas com seus vestidos da moda e florzinhas na cabeça, todos admiradores do bom “Samba de Raiz”. E é na rua que a apresentadora chega para uma dessas mocinhas e pergunta:
- Fala um pouco pra gente o que é o samba?
E a bela sambista responde: (Não exatamente nessas palavras)
- Ah, o samba é essa raiz carioca que nós, hoje em dia, estamos recuperando.

Prestaram atenção no que ela falou né? Que nós cariocas estamos recuperando o Samba. Só se for nessa vida de patricinha dela que vive das tendências, as mesmas que tentam envenenar nossas tradições, como estão fazendo hoje com o Samba e fizeram no passado com o Forró.

Embasbacado com o que estava vendo, bebi um copo d´água, e consegui continuar assistindo ao vexame.

Depois do segundo atentado, Daniele Suzuki adentra à um casa, onde estava acontecendo uma apresentação da cantora Luciane Menezes. Nada contra o trabalho de nenhuma das duas, a casa é nova na Lapa e frequentemente vem abrindo espaço para shows de artistas regionais que expressam ritmos tradicionais de todas as partes do Brasil. Luciane Menezes é uma cantora talentosa, que tem como característica mesclar ritmos regionais em seus shows como, samba, coco, maracatu e ciranda. Neste caso, não acho que o programa cometeu um atentado, mas sim um equívoco, eles poderiam ter escolhido um outro estaelecimento no qual estivesse tocando o samba genuíno, já que eles são tantos, ou então ter ido à esta mesma casa em um outro dia. Mas, já estava tão revoltado que qualquer gota pra mim, naquele momento, era uma tempestade.

E o programa continua, nos próximos blocos são gravadas imagens num Centro Cultural na Lapa, e numa feijoada que acontece em laranjeiras; e entrevistas com os grupos Casuarina e Sereno da Madrugada. Pela primeira vez, o programa mostrou samba, mas mesmo assim não me satisfez. As bandas são consideradas representantes da nova geração, mas na minha opinião, ainda existem outros grupos contemporâneos que são melhores e me transmitem um samba muito mais verdadeiro, com pureza. Contudo, respeito o trabalho que as duas vêm fazendo.

Na mesma feijoada, Daniele Suzuki acaba a entrevista com o Sereno da Madrugada, que era a atração do dia, e passa para uma conversa com, vejam vocês, Moinho da Bahia. Tudo bem que, como fiquei sabendo, o som do grupo sofre uma forte influência dos sambas feitos pela velha guarda baiana, mas, pelo que me parece, o samba em questão seria o do Rio, o verdadeiro, que nasceu lá na Pequena-África. Deixando aqui registrado, não tenho nada contra o trabalho do grupo Moinho da Bahia também.

Pasmo com tanta corruptela, saí de casa revoltado e não pensei em outra coisa que não fosse este programa, uma pena, pois poderiam ter feito um negócio bonito e emocionante, e com isso, mostrar pra essa Grande Juventude o samba verdadeiro. Mas, percebi que o programa caiu no erro de expressar o ponto de vista desta tribo nojenta, que tenta banalizar o samba de qualquer maneira.
Francamente, uma pena.

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Deixa Falar, uma Aula de Samba

O carnaval é sem dúvida a maior festa popular expressada no Brasil. Em cada pedaço de terra deste país o coro come quando chega o mês de fevereiro. Festança, cantoria, bebedeira, fantasias, confete, serpentinas e ultimamente, em algumas cidades, troca de tapas, socos e até tiros (infelizmente). Mas os bons carnavais eram os de antigamente, quantas saudades esses antigos carnavais deixam, não? Tenho certeza que todo mundo já ouviu dizer esta frase alguma vez de um ente mais velho. Como já dizia o jornalista Sérgio Cabral, este sentimento é um processo cíclico, pois você já ouviu seu pai dizer isso, que o seu avô disse pra ele, e que com certeza já escutou o mesmo da boca do seu bisavô.

É a partir desta introdução que ouso a remerter-me aos tempos do meu bisavô, ou infância do meu avô. A década de 20 adiante, tempo em que o carnaval trazia os ranchos para as ruas.

Os ranchos carnavalescos eram reuniões de foliões que saíam às ruas em forma de cordões cantando suas músicas e tocando seus instrumentos (na maioria harmônicos, e eram acompanhados por um grande coro). E eles dividiam as vias públicas com os blocos, agremiações com um número menor de componentes. Era quase o mesmo desenho dos blocos que conhecemos hoje em dia.

Mas é no ano de 1927 que surge algo diferente que mudou o estilo e o fez que permanessece até o carnaval de hoje. No bairro do Estácio, pelas aproximações do morro do São Carlos sai na rua a Escola de Samba Deixa Falar. Fundada por um grupo de sambistas compositores que moravam pela região.

A Deixa Falar, que primeiramente foi classificada como bloco, se autodenominava “escola” porque os seus componentes eram verdadeiros mestres da batucadas e poderiam ensinar o samba para o povo. Marcada pela inovação, a escola fazia seus sambas com enredos diferentes dos ranchos (músicas que tinham fatos do cotidiano como tema, por exemplo) e era embalada por uma bateria, com os seus instrumentos de batucada, e na harmonia, apenas cavaquinho e violão. Seu ritmo, assim, era um samba batucado, se diferenciando dos maxixes que eram tocados na época.

O corpo docente da agremiação era composto, nada mais nada menos, por grandes nomes do samba como: Ismael Silva, Alcebíades Barcellos (Bide), Heitor dos Prazeres, Armando Marçal, Baiaco, Mano Edgar e muitos outros. Sambistas que hoje ainda são reverenciados e lembrados com prazer nas rodas de samba de qualidade.

Desses nomes quero aqui destacar três. A começar por Ismael Silva, que foi o responsável por separar o samba do maxixe, fazendo uma divisão diferente e acentuando a percussão, sendo então um precursor no assunto, influenciando uma linha de sambistas contemporâneos, como Noel, Wilson Batista e Ary Barroso. Depois, passo a falar de uma dupla afinadíssima, Bide e Marçal. Os dois são responsáveis por inúmeros sucessos que fizeram juntos nas décadas de 30 e 40. Bide foi o inventor do surdo de marcação e introdutor dos tamborins numa bateria de escola de samba, instrumentos que hoje são peças fundamentais. Seu parceiro Armando Marçal, foi o primeiro de uma dinastia de mestres de baterias e de grandes ritmistas. Como já foi citado neste blog, o compositor é pai de Nilton Delfino Marçal (Mestre Marçal) e avô de Marçalzinho.

A Deixa Falar deixou de existir precocemente, mas serviu de inspiração para escolas como Estácio de Sá, Portela, Vila Isabel, Mangueira e Império. Dá pra ver que naquela época o carnaval era bom mesmo né. Pois é, hoje infelizmente vemos cada vez mais as escolas sendo tomadas pelas multinacionais e fazendo enredos de acordo com a quantia que podem arrecadar, relacionados a quem pode investir mais. As superescolas de samba s.a realizam o atual carnaval para inglês ver, literalmente. Talvez eu não sei se vou poder falar para o meu filho que o carnaval bom mesmo era foi o que eu vivi.

Salve o Grêmio Recreativo de arte Negra Quilombo, que lá nos primórdios foi contra este movimento de banalização do carnaval, mas aí já é outro assunto, esperem.

E a história continua...

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Mestre Marçal, o meio de uma dinastia.

Nilton Delfino Marçal, nasceu em um berço que não era repleto de ouro ou jóias, não descendia da aristocracia carioca, contudo não há de se negar que possuiu um berço esplendido. Nasceu no ano de 1930 no carioquíssimo bairro de Ramos dando continuidade a uma verdadeira dinastia no samba.
Filho de Armando Vieira Marçal, que ao lado de Alcebíades Barcellos, o Bide, ajudou a consagrar a nova maneira de se fazer e cantar samba do Estácio, Mestre Marçal se mostrou um verdadeiro coringa em matéria de samba.
Poucos comandavam com tanta maestria baterias de escola de samba como ele, com suas afinações de instrumentos bastante particulares, como comprovado em seu disco “A incrível bateria do Mestre Marçal” (1988), disco em que gravou com bateria comandada por ele tocando o fino dos sambas-de-enredo. Sua historia com as escolas de samba teve inicio na escola Recreio de Ramos, onde começou na ala de tamborins. Seguiu sua trajetória de sucesso indo para a Unidos da Capela, Império Serrano e por fim Portela escola na qual comandou por 20 anos a bateria, saindo nos anos 80 após desentendimentos com o então presidente Carlinhos Maracanã..
Mas Marçal não se contentou com sua trajetória de mestre de bateria, seguindo também para uma carreira, não menos brilhante, de cantor. Nesta, resgatava sambas históricos da dupla Bide e Marçal, como em “Não Diga a Ela Minha Residência”, passando por outra dupla, esta mais contemporânea, na linda melodia de “Desalento”, de Chico Buarque e Vinicius de Moraes, chegando à geração do Pagode (entende-se a geração Cacique de Ramos, protagonizada pelo Grupo Fundo de Quintal e Zeca Pagodinho, e não o neo-pagode, gênero introduzido à força pela mídia no contexto do samba, mas mais uma vez, isso é outra discussão), com a gravação da irônica “Até de Avião”, dos irmãos Arlindo Cruz e Acyr Marques, e Luiz Carlos da Vila.
Outra virtude sua eram as frases sempre fascinantes como: “quem muito procura, quando acha não reconhece” e “não me interessa o preço da banha, eu quero é comer engordurado”. Quando lhe perguntavam como andava, respondia de bate-pronto, “vou comendo pela beirada enquanto o meio esfria”.
Para encerrar o papo sobre o Mestre Marçal, deixo um recado gravado por ele em seu LP "Senti Firmeza", gravadora Barclay/Polygram, no ano de 1986. A faixa, intitulada "Aos Novos Compositores", do trio Arlindo Cruz, Acyr Marques e Chiquinho Virgula, manda um recado à nova geração de compositores, que será sempre responsável por dar sequência à tradição legada pelos velhos bambas, mostrando que a raiz do samba continua dando frutos em profusão.

"Mil perdões pelo meu senso
De criticar
Mas existo, logo penso
E pensando vou falar
Aos novos compositores
Promissores, empolgados
Reconheço alguns valores
Realmente inspirados
Mas tem gente forçando barra
Gente querendo inventar
Fazendo samba na marra
Sem ligar pra criação
Dessa gente eu gostaria de atenção
Pois nessa terra de ninguém
O samba se mantém
Porque mantém a tradição
Ôôô estou querendo criticar pra construir
Pra não deixar quem é do contra criticar
Pra acabar com o argumento de quem diz
Que o samba não frutificou, só tem raiz
Vamos escrever ouvindo a voz do coração
Deixar fluir a verdadeira inspiração
E assim realmente criar
Para continuar o que nos ensinou, velhos bambas
Só assim, sem ter o que falar
Eles vão se curvar, vão cantar e tocar novos sambas"

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90 anos de Confirmação, Autonomia e Verdades.

Neste ano de 2007 o povo brasileiro tem uma comemoração especial para sua cultura. Completa-se 90 anos que o primeiro samba foi gravado oficializando, assim, a existência do ritmo. Pode-se dizer “especial” porque foi no ano de 1917 que foi dado o pontapé inicial de uma trajetória que muito contribuiu para o brasileiro adquirir uma autonomia e enfim bater no peito com orgulho e dizer que essa música, que hoje é tocada, reverenciada e ensinada nos sete cantos do mundo nasceu aqui, e também ainda é representativa na nossa sociedade.

No período pós-abolição, a então capital do país Rio de janeiro, recebeu ex-escravos advindos da Bahia que por aqui aportaram na zona portuária da cidade. A região conhecida como Pequena-África – que engloba os bairros da Gamboa, Praça Onze, Praça Mauá, Pedra do Sal e adjacências – abrigou não só os ex-escravos como também comunidades de judeus e marinheiros portugueses. Porém é a vinda dos baianos, mas exclusivamente das baianas, que interessa para a história do samba.

As velhas baianas conhecidas como “tias”, eram em sua maioria mães de santo respeitadas, cozinheiras de mão-cheia e grandes festeiras. Suas residências eram famosas por abrigar muita dança, bebida, comida e música. A mais famosa delas era a Tia Ciata que na sua casa conseguia reunir os maiores operários da música popular da época. Na sua sala de estar, os convidados dançavam juntos ao som de um chorinho suave tocado sempre por flauta, piano e violão; na sala de jantar era o pessoal do samba, a dança dessa vez era individual, e na música continha o som de instrumentos de batucada unidos aos de harmonia; Já no quintal (quando não tinha o mesmo samba), era o terreiro das danças de candomblé e capoeira.

Foi numa dessas festas na casa de tia Ciata que Ernesto dos Santos, mais conhecido como Donga, apresentou um samba de sua autoria em parceria com o jornalista Mauro de Almeida. Em meio a nomes como João da Baiana, Sinhô, Pixinguinha e Bucy Moreira, Donga cantou e encantou os presentes com sua obra um pouco diferente, mesclando um pouco de partido-alto e maxixe. O samba foi gravado somente em 1917 pelo cantor Bahiano e assim se tornou o sucesso do carnaval daquele ano e marcou o início dessa grande história.

A música era “Pelo Telefone” e com passar dos anos foi regravada outras muitas vezes e por diversos artistas, porém, em nenhuma delas é tocada a versão original da letra. A versão que realmente ficou conhecida foi uma sátira feita por Mauro de Almeida para alertar e zombar com o chefe da polícia daquela época, Aurelino Leal: “O chefe da polícia pelo telefone mandou avisar / Que na carioca tem uma roleta para se jogar...”

Confiram aqui a versão original completa:

O chefe da folia pelo telefone manda me avisar / Que com alegria não se questione para se brincar.(bis) // Ai, ai, ai...Deixa as mágoas para trás ó rapaz / Ai, ai, ai fica triste se és capaz e verás. (bis) // Tomara que tu apanhes / Não tornes a fazer isso / Tirar amores dos outros / Depois fazer teu feitiço // Olhe a rolinha / Sinhô, sinhô / Se embaraçou/ Sinhô,sinhô / Caiu no balanço / Sinhô, sinhô / Do nosso amor / Sinhô, sinhô / Porque este samba / Sinhô, sinhô / É de arrepiar / Sinhô, sinhô / Põe perna bamba / Sinhô, sinhô / Me faz gozar / Sinhô, sinhô // O “Peru” me disse / Se o “Morcego” visse / Eu fazer tolice / Que então saísse / Dessa esquisitice / De disse que não disse // Ai, ai ,ai aí está o ideal, triunfal / Viva o nosso carnaval, sem rival // Se quem tirar o amor dos outros / Por Deus fosse castigado / O mundo estava vazio / e o inferno só habitado // Queres ou não / Sinhô, sinhô / Vir pro cordão / Sinhô, sinhô / Do coração / Sinhô, sinhô / Por este samba.”

Filho de uma baiana, o compositor Donga começou a aprender cavaquinho com 14 anos de idade. Com o passar do tempo foi trocando o seu primeiro instrumento pelo violão, e se tornou um integrante do grupo Caxangá, de onde faziam parte também o violonista João Pernambuco e Pixinguinha. Posteriormente fez sucesso depois que formou com o próprio Pixinguinha “Os Oito Batutas”, o primeiro grupo formado somente por negros realizar uma turnê internacional. Na história do sambista tem ainda outros projetos nacionais e internacionais com outros grandes nomes da música. Dentre seu extenso arsenal de composições “Pelo Telefone” foi a mais importante, não só pra ele como pra todos nós.

Axé para Donga. E a história continua...

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Cadê meu samba?

Nasci na Zona Sul do Rio de Janeiro, família de classe média, e branco na pele. Não sou nem de perto alguém que se diga que nasceu no meio do samba, apesar de meu pai ter me ensinado desde cedo a ouvir musicas de qualidade em LP´s que coleciono e me orgulho até hoje. Mas se não nasci no samba, minha paixão me fez ir até ele e com isso passei a me confrontar com duas realidades.
A primeira delas seria a vida típica da zona sul, com seus modismos importados de outros lugares, muitas vezes lugares de uma mesma cidade. Primeiro veio o funk, o forró, o pagode, o axé, culminando na nova onda do momento o “samba de raiz”.
A segunda realidade, ainda que distante de mim, foi a dos sambas genuínos, dos subúrbios cariocas, samba do centro da cidade, da tijuca, de Madureira, e por ai vai. Lugares que se orgulham de ter passado por todos os modismos conservando sua essência, sua forte cultura popular.
Falarei a partir de agora da realidade que convivo no dia a dia. O “samba de raiz” da Zona Sul.
Há um movimento que transformou o que era outrora visto como som marginal, coisa de vagabundo, de malandro, em uma nova definição “classemediana”, hoje o samba é “cult”. Dessa maneira, surgem a cada dia pseudo-intelectuais, que erguem verdadeiros altares para Chico Buarque (que obviamente tem muitas obras tanto musicais quanto literárias excelentes, e há de ser reconhecido), sem muitas vezes saber o que aquilo quer realmente expressar.
Pessoas que adoram a Mangueira, e principalmente encher a boca pra falar “essa musica é do mestre Cartola!!!” ou ainda “essa é do grande Nelson Cavaquinho”, sobre o segundo já ouvi falarem que foi uma grande pena ter morrido sem o reconhecimento merecido o qual pedia em “Quando Eu Me Chamar Saudade”, mas os mesmo que se solidarizavam com Nelson Cavaquinho, continuavam a desconhecer, porque não acredito que se possa ignorar, a luta continua de vida de Guilherme de Brito.
Quando falam em partido alto um nome surge logo a mente, Zeca Pagodinho. Acho que isso seria uma afronta ao próprio Zeca se um dia viesse a ouvir-lo. Ora, e não se fala de Aniceto, João da Baiana, Donga, Candeia? Nada disso existiu na Zona Sul? Aproveito para reproduzir um verso de Aniceto do Império: “Quando falar em partido/Quando louvar partideiro/Lembrei João da Baiana/E o velho Donga primeiro”.
O que me anima é saber que essa moda um dia acaba, e vou poder voltar dos sambas de terreiro nos subúrbios sem ouvir falarem que samba é Chico Buarque, João Donato, e outros bossa-novistas que renegaram o samba após se aproveitar o máximo da nossa mais forte cultura popular.

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É Samba que Eles Querem

É muito bonito ver o samba sendo compartilhado em todos os cantos do Rio de Janeiro.Ultimamente fico refletindo sobre esse pensamento, que flutua pelas mentes dos boêmios mais vividos que eu. Eles adoram frisar a alegria de poder novamente ouvir um samba tocando em qualquer lugar, seja dentro do seu fiel amigo Botequim, nas revigoradas casas de show da Lapa e adjacências, nas faculdades e por aí vai... (ultimamente até em boate, inacreditável).
Pois bem, sou contemporâneo de uma juventude que está vivendo o samba como o gênero musical do momento. A música que não deve faltar em todo tipo de reunião, de churrasco à festa de luxo o ritmo harmonizado entre batuques e cordas faz todo mundo dançar alegremente, demonstrando sua desenvoltura em passos cada vez mais mirabolantes. É o samba que agita a galera, que enche de brilho os olhos das meninas e também que garante status ao rapaz que está atrás do microfone, sentado numa cadeira e tocando – ou ao menos achando que toca - um pandeiro, ganzá ou tan-tan. (Até porque cavaquinho e violão são difíceis de enganar, mas mesmo assim ainda existem aqueles mais audaciosos).
Essa é a juventude dos rapazes que saem pra rua com suas camisas de botão, bermudas descoladas com bolsos dos lados e uma sandália rasteira; tudo isso unido à uma manemolência , um jeito malandro de ser (importante frisar que não são todos os adeptos deste traje que têm a mesma postura da qual vou falar). Tem uns que para caracterizar ainda mais esse estilo até colocam um chapéu de panamá. E assim, eles chegam com classe no samba desfilando seu figurino e exercitando seus "dois-pra-lá - dois-pra-cás" e rodopios mais diversos.
É a juventude das meninas que vestem aqueles vestidos da moda, ou simples saias compridas, segundo elas “que tenham a ver com o samba”, fora a florzinha no cabelo (Idem o parênteses escrito acima). E, também, é assim que elas se apresentam para o samba, onde vão esperar um desses “malandros” esticar-lhe a mão para uma dança e então praticarem todos aqueles – novamente citando – "dois-pra-lá-dois-pra-cás" e rodopios de deixar qualquer um mais tonto que sambista em dia de velório.
Grande juventude essa, que se diz apaixonada pelo samba de raiz. Ta aí, Samba de Raiz, engraçado como a juventude adora usar essa classificação, faz até parecer que ela existe. Um dia hei de perguntar pra eles o que viria a ser o Samba de Raiz. Porque eu já sei como é o Samba de Breque, o Partido-Alto, o Samba-Canção, o Samba- Choro e até o Samba-Bolero por exemplo, mas este eu ainda não consegui diferenciar. Grande também pode ser o vasto conhecimento musical, pois acham que o hit preferido - neste caso peço licença para uma brincadeira maldosa - “Sem Compromisso” foi feito por Chico Buarque. Acham também que a composição “Samba Que Nem a Rita Adora” (uma resposta para “A Rita” do mesmo Chico Buarque) é obra-prima do cantor Seu Jorge, pois foi através de suas gravações que ela teve acesso a essas poesias. Grande juventude essa, que nesse momento nem cogita em pensar em Geraldo Pereira e Luiz Carlos da Vila.
Grande juventude essa que de Beth Carvalho só quer ouvir “Vou Festejar” e “Água de Chuva no Mar” (talvez nem saibam também que essa música é de Wanderley Monteiro) e quando ela puxa “A Chuva Cai” ou “ Bar da Neguinha” acha que é a hora de comprar cerveja. A mesma juventude que adora cantar junto com Arlindo Cruz “O show Tem Que Continuar” mas vira as costas quando ele puxa “O Filho do Quitandeiro”.
Grande juventude essa que ignora a importância de eternas parcerias como Bide e Marçal; Wilson Moreira e Nei Lopes; ou Paulo César Pinheiro e João Nogueira, entre outras tantas. Que enaltece com razão Nelson Cavaquinho, mas perde a mesma quando esquece de Guilherme de Brito. Que enche o peito pra falar de Mangueira, Salgueiro, Madureira e sequer tem conhecimento sobre a região da Pequena-África, a casa de Ciata, que foi onde tudo começou.
Grande, enorme. Essa juventude que se envaidece quando olham para ela e dizem que é da terra do samba. Que gira pra lá e pra cá dançando qual o forró e não sabe usar o miudinho, o cruzado ou o machadinho. É a juventude que sabe dançar, mas não sabe sambar. É a juventude que aplaude quando os grupos da nova geração interpretam músicas de grandes baluartes, mas não tem a mesma atitude quando eles cantam autorias próprias. Não tem noção de que são esses grupos que darão continuidade a gloriosa trajetória do samba. E, acima de tudo, não sabe quais são essas bandas novas realmente talentosas (mas isso é outro assunto).
Pois é, são inúmeras as homenagens que eu posso prestar a essa juventude, talvez o texto ficaria muito grande se eu continuasse. Na maioria das vezes sou chamado de chato, de velho (apesar da pouca idade) por não fazer parte desse grupo social. Mas não me preocupo pois sei que, assim como eu, ainda existem aqueles que também vão contra esse modismo jovial. Aqueles que não vão tratar o samba como trataram o Forró há cinco, seis anos atrás. Por falar nisso, as mesmas casas que neste passado próximo eram conhecidas como patrimônios do forró carioca, hoje tocam samba, (ou se tocam o bate-coxa ao vivo, nos intervalos o DJ põe o samba pra rolar). Hoje a moda dessa juventude é samba, é samba que eles querem. E amanhã, qual será a bola da vez?
O que me resta, apenas, é pedir uma salva de palmas para essa Grande Juventude.

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O NOSSO PARTIDO

Bem galera, a partir de agora estaremos por aqui escrevendo um pouco dos nossos sentimentos e convicções acerca de uma das maiores, se não a maior, fontes da nossa cultura, o Samba.
Não pretendemos ser imparciais, nem agradar a todos, sabemos também que em muitos casos o que dissermos não será uma verdade absoluta e que muitos discordarão. Mas nosso objetivo será tentar retratar por aqui alguns dos vários pontos do samba esquecidos por muitos que vêem no samba apenas mais um modismo.
Falaremos de Noel Rosa mas sem jamais esquecer de Vadico. Falaremos de Nelson Cavaquinho mas sempre exaltando à Guilherme de Brito. E sempre que possível traremos a tona os heróis conhecidos ou anônimos do samba de terreiro e dos morros cariocas, aqueles que construíram a história e a mantém viva em sua verdadeira essência até hoje.
Contamos com a ajuda de todos para temas, curiosidades e tudo mais que possa interessar, até mesmo puxões de orelha caso venhamos a falar besteira por aqui.
Um Grande Abraço e esperamos ter a companhia de vocês a partir de agora.

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