quarta-feira, 21 de março de 2007

É Samba que Eles Querem

É muito bonito ver o samba sendo compartilhado em todos os cantos do Rio de Janeiro.Ultimamente fico refletindo sobre esse pensamento, que flutua pelas mentes dos boêmios mais vividos que eu. Eles adoram frisar a alegria de poder novamente ouvir um samba tocando em qualquer lugar, seja dentro do seu fiel amigo Botequim, nas revigoradas casas de show da Lapa e adjacências, nas faculdades e por aí vai... (ultimamente até em boate, inacreditável).
Pois bem, sou contemporâneo de uma juventude que está vivendo o samba como o gênero musical do momento. A música que não deve faltar em todo tipo de reunião, de churrasco à festa de luxo o ritmo harmonizado entre batuques e cordas faz todo mundo dançar alegremente, demonstrando sua desenvoltura em passos cada vez mais mirabolantes. É o samba que agita a galera, que enche de brilho os olhos das meninas e também que garante status ao rapaz que está atrás do microfone, sentado numa cadeira e tocando – ou ao menos achando que toca - um pandeiro, ganzá ou tan-tan. (Até porque cavaquinho e violão são difíceis de enganar, mas mesmo assim ainda existem aqueles mais audaciosos).
Essa é a juventude dos rapazes que saem pra rua com suas camisas de botão, bermudas descoladas com bolsos dos lados e uma sandália rasteira; tudo isso unido à uma manemolência , um jeito malandro de ser (importante frisar que não são todos os adeptos deste traje que têm a mesma postura da qual vou falar). Tem uns que para caracterizar ainda mais esse estilo até colocam um chapéu de panamá. E assim, eles chegam com classe no samba desfilando seu figurino e exercitando seus "dois-pra-lá - dois-pra-cás" e rodopios mais diversos.
É a juventude das meninas que vestem aqueles vestidos da moda, ou simples saias compridas, segundo elas “que tenham a ver com o samba”, fora a florzinha no cabelo (Idem o parênteses escrito acima). E, também, é assim que elas se apresentam para o samba, onde vão esperar um desses “malandros” esticar-lhe a mão para uma dança e então praticarem todos aqueles – novamente citando – "dois-pra-lá-dois-pra-cás" e rodopios de deixar qualquer um mais tonto que sambista em dia de velório.
Grande juventude essa, que se diz apaixonada pelo samba de raiz. Ta aí, Samba de Raiz, engraçado como a juventude adora usar essa classificação, faz até parecer que ela existe. Um dia hei de perguntar pra eles o que viria a ser o Samba de Raiz. Porque eu já sei como é o Samba de Breque, o Partido-Alto, o Samba-Canção, o Samba- Choro e até o Samba-Bolero por exemplo, mas este eu ainda não consegui diferenciar. Grande também pode ser o vasto conhecimento musical, pois acham que o hit preferido - neste caso peço licença para uma brincadeira maldosa - “Sem Compromisso” foi feito por Chico Buarque. Acham também que a composição “Samba Que Nem a Rita Adora” (uma resposta para “A Rita” do mesmo Chico Buarque) é obra-prima do cantor Seu Jorge, pois foi através de suas gravações que ela teve acesso a essas poesias. Grande juventude essa, que nesse momento nem cogita em pensar em Geraldo Pereira e Luiz Carlos da Vila.
Grande juventude essa que de Beth Carvalho só quer ouvir “Vou Festejar” e “Água de Chuva no Mar” (talvez nem saibam também que essa música é de Wanderley Monteiro) e quando ela puxa “A Chuva Cai” ou “ Bar da Neguinha” acha que é a hora de comprar cerveja. A mesma juventude que adora cantar junto com Arlindo Cruz “O show Tem Que Continuar” mas vira as costas quando ele puxa “O Filho do Quitandeiro”.
Grande juventude essa que ignora a importância de eternas parcerias como Bide e Marçal; Wilson Moreira e Nei Lopes; ou Paulo César Pinheiro e João Nogueira, entre outras tantas. Que enaltece com razão Nelson Cavaquinho, mas perde a mesma quando esquece de Guilherme de Brito. Que enche o peito pra falar de Mangueira, Salgueiro, Madureira e sequer tem conhecimento sobre a região da Pequena-África, a casa de Ciata, que foi onde tudo começou.
Grande, enorme. Essa juventude que se envaidece quando olham para ela e dizem que é da terra do samba. Que gira pra lá e pra cá dançando qual o forró e não sabe usar o miudinho, o cruzado ou o machadinho. É a juventude que sabe dançar, mas não sabe sambar. É a juventude que aplaude quando os grupos da nova geração interpretam músicas de grandes baluartes, mas não tem a mesma atitude quando eles cantam autorias próprias. Não tem noção de que são esses grupos que darão continuidade a gloriosa trajetória do samba. E, acima de tudo, não sabe quais são essas bandas novas realmente talentosas (mas isso é outro assunto).
Pois é, são inúmeras as homenagens que eu posso prestar a essa juventude, talvez o texto ficaria muito grande se eu continuasse. Na maioria das vezes sou chamado de chato, de velho (apesar da pouca idade) por não fazer parte desse grupo social. Mas não me preocupo pois sei que, assim como eu, ainda existem aqueles que também vão contra esse modismo jovial. Aqueles que não vão tratar o samba como trataram o Forró há cinco, seis anos atrás. Por falar nisso, as mesmas casas que neste passado próximo eram conhecidas como patrimônios do forró carioca, hoje tocam samba, (ou se tocam o bate-coxa ao vivo, nos intervalos o DJ põe o samba pra rolar). Hoje a moda dessa juventude é samba, é samba que eles querem. E amanhã, qual será a bola da vez?
O que me resta, apenas, é pedir uma salva de palmas para essa Grande Juventude.

3 comentários:

Fernanda disse...

Resumindo: "Cheira-bosta" :p

22 de março de 2007 15:41
Mari disse...

Eu já te disse hj que eu te acho muito foda?!?! Tô aqui babando em frente ao computador...dá vontade de pregar isso na porta do Cacos,na entrada da fundição nos dias de Samba em 4Tempos e na entrada do Democraticos nas quintas-feiras lotaaadas...
Muito,muito,muito foda meu bohemio preferido!!!!!

26 de março de 2007 20:20
Anônimo disse...

alguém ilumine essa juventude! acho que esse texto já seria um bom começo.. Abraço caio!

5 de abril de 2007 14:35
 

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