Um Programa Equivocado

Percorrendo os muitos canais por muitas vezes muito inúteis da TV a cabo instalada na minha casa encontrei algo que me prendeu a atenção. Era de manhã e estava passando uma reprise do programa Tribos, no Multishow, apresentado por uma bela e talentosa Daniele Suzuki. O maior motivo por eu parar neste canal não foi o charme nipônico-brasileiro (se é que existe este termo) da apresentadora, mas sim porque a “tribo” em pauta era a do Samba. E é aí que começa a minha contrariedade com o os equívocos tamanhos que a atração jovial cometeu.

Vamos ao programa.

Eis que eu o pego o bonde andando, pois quando chego no canal já está acontecendo uma entrevista com o rapper Marcelo D2. Tudo bem, um ídolo POP como ele, que conquistou uma legião de fãs falando de seu respeito pelo samba nas letras compostas ta legal, mas, convenhamos, o Marcelo D2 não pode ter autonomia para se postar como um porta-voz e defensor da bandeira do samba, o negócio dele é o movimento HIP-HOP, e pronto. Depois desse atentado, por incrível que pareça, continuei vendo o programinha. Da entrevista acontece um corte que vai para uma tomada noturna na Rua Men de Sá, na Lapa, consumida por esses bares nojentos que se autodenominam butiquins, ou Botequins como queiram seus donos, e um povo do qual eu nem preciso falar né.... malandros do posto 9 com suas sandalinhas rasteiras e meninas com seus vestidos da moda e florzinhas na cabeça, todos admiradores do bom “Samba de Raiz”. E é na rua que a apresentadora chega para uma dessas mocinhas e pergunta:
- Fala um pouco pra gente o que é o samba?
E a bela sambista responde: (Não exatamente nessas palavras)
- Ah, o samba é essa raiz carioca que nós, hoje em dia, estamos recuperando.

Prestaram atenção no que ela falou né? Que nós cariocas estamos recuperando o Samba. Só se for nessa vida de patricinha dela que vive das tendências, as mesmas que tentam envenenar nossas tradições, como estão fazendo hoje com o Samba e fizeram no passado com o Forró.

Embasbacado com o que estava vendo, bebi um copo d´água, e consegui continuar assistindo ao vexame.

Depois do segundo atentado, Daniele Suzuki adentra à um casa, onde estava acontecendo uma apresentação da cantora Luciane Menezes. Nada contra o trabalho de nenhuma das duas, a casa é nova na Lapa e frequentemente vem abrindo espaço para shows de artistas regionais que expressam ritmos tradicionais de todas as partes do Brasil. Luciane Menezes é uma cantora talentosa, que tem como característica mesclar ritmos regionais em seus shows como, samba, coco, maracatu e ciranda. Neste caso, não acho que o programa cometeu um atentado, mas sim um equívoco, eles poderiam ter escolhido um outro estaelecimento no qual estivesse tocando o samba genuíno, já que eles são tantos, ou então ter ido à esta mesma casa em um outro dia. Mas, já estava tão revoltado que qualquer gota pra mim, naquele momento, era uma tempestade.

E o programa continua, nos próximos blocos são gravadas imagens num Centro Cultural na Lapa, e numa feijoada que acontece em laranjeiras; e entrevistas com os grupos Casuarina e Sereno da Madrugada. Pela primeira vez, o programa mostrou samba, mas mesmo assim não me satisfez. As bandas são consideradas representantes da nova geração, mas na minha opinião, ainda existem outros grupos contemporâneos que são melhores e me transmitem um samba muito mais verdadeiro, com pureza. Contudo, respeito o trabalho que as duas vêm fazendo.

Na mesma feijoada, Daniele Suzuki acaba a entrevista com o Sereno da Madrugada, que era a atração do dia, e passa para uma conversa com, vejam vocês, Moinho da Bahia. Tudo bem que, como fiquei sabendo, o som do grupo sofre uma forte influência dos sambas feitos pela velha guarda baiana, mas, pelo que me parece, o samba em questão seria o do Rio, o verdadeiro, que nasceu lá na Pequena-África. Deixando aqui registrado, não tenho nada contra o trabalho do grupo Moinho da Bahia também.

Pasmo com tanta corruptela, saí de casa revoltado e não pensei em outra coisa que não fosse este programa, uma pena, pois poderiam ter feito um negócio bonito e emocionante, e com isso, mostrar pra essa Grande Juventude o samba verdadeiro. Mas, percebi que o programa caiu no erro de expressar o ponto de vista desta tribo nojenta, que tenta banalizar o samba de qualquer maneira.
Francamente, uma pena.

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Deixa Falar, uma Aula de Samba

O carnaval é sem dúvida a maior festa popular expressada no Brasil. Em cada pedaço de terra deste país o coro come quando chega o mês de fevereiro. Festança, cantoria, bebedeira, fantasias, confete, serpentinas e ultimamente, em algumas cidades, troca de tapas, socos e até tiros (infelizmente). Mas os bons carnavais eram os de antigamente, quantas saudades esses antigos carnavais deixam, não? Tenho certeza que todo mundo já ouviu dizer esta frase alguma vez de um ente mais velho. Como já dizia o jornalista Sérgio Cabral, este sentimento é um processo cíclico, pois você já ouviu seu pai dizer isso, que o seu avô disse pra ele, e que com certeza já escutou o mesmo da boca do seu bisavô.

É a partir desta introdução que ouso a remerter-me aos tempos do meu bisavô, ou infância do meu avô. A década de 20 adiante, tempo em que o carnaval trazia os ranchos para as ruas.

Os ranchos carnavalescos eram reuniões de foliões que saíam às ruas em forma de cordões cantando suas músicas e tocando seus instrumentos (na maioria harmônicos, e eram acompanhados por um grande coro). E eles dividiam as vias públicas com os blocos, agremiações com um número menor de componentes. Era quase o mesmo desenho dos blocos que conhecemos hoje em dia.

Mas é no ano de 1927 que surge algo diferente que mudou o estilo e o fez que permanessece até o carnaval de hoje. No bairro do Estácio, pelas aproximações do morro do São Carlos sai na rua a Escola de Samba Deixa Falar. Fundada por um grupo de sambistas compositores que moravam pela região.

A Deixa Falar, que primeiramente foi classificada como bloco, se autodenominava “escola” porque os seus componentes eram verdadeiros mestres da batucadas e poderiam ensinar o samba para o povo. Marcada pela inovação, a escola fazia seus sambas com enredos diferentes dos ranchos (músicas que tinham fatos do cotidiano como tema, por exemplo) e era embalada por uma bateria, com os seus instrumentos de batucada, e na harmonia, apenas cavaquinho e violão. Seu ritmo, assim, era um samba batucado, se diferenciando dos maxixes que eram tocados na época.

O corpo docente da agremiação era composto, nada mais nada menos, por grandes nomes do samba como: Ismael Silva, Alcebíades Barcellos (Bide), Heitor dos Prazeres, Armando Marçal, Baiaco, Mano Edgar e muitos outros. Sambistas que hoje ainda são reverenciados e lembrados com prazer nas rodas de samba de qualidade.

Desses nomes quero aqui destacar três. A começar por Ismael Silva, que foi o responsável por separar o samba do maxixe, fazendo uma divisão diferente e acentuando a percussão, sendo então um precursor no assunto, influenciando uma linha de sambistas contemporâneos, como Noel, Wilson Batista e Ary Barroso. Depois, passo a falar de uma dupla afinadíssima, Bide e Marçal. Os dois são responsáveis por inúmeros sucessos que fizeram juntos nas décadas de 30 e 40. Bide foi o inventor do surdo de marcação e introdutor dos tamborins numa bateria de escola de samba, instrumentos que hoje são peças fundamentais. Seu parceiro Armando Marçal, foi o primeiro de uma dinastia de mestres de baterias e de grandes ritmistas. Como já foi citado neste blog, o compositor é pai de Nilton Delfino Marçal (Mestre Marçal) e avô de Marçalzinho.

A Deixa Falar deixou de existir precocemente, mas serviu de inspiração para escolas como Estácio de Sá, Portela, Vila Isabel, Mangueira e Império. Dá pra ver que naquela época o carnaval era bom mesmo né. Pois é, hoje infelizmente vemos cada vez mais as escolas sendo tomadas pelas multinacionais e fazendo enredos de acordo com a quantia que podem arrecadar, relacionados a quem pode investir mais. As superescolas de samba s.a realizam o atual carnaval para inglês ver, literalmente. Talvez eu não sei se vou poder falar para o meu filho que o carnaval bom mesmo era foi o que eu vivi.

Salve o Grêmio Recreativo de arte Negra Quilombo, que lá nos primórdios foi contra este movimento de banalização do carnaval, mas aí já é outro assunto, esperem.

E a história continua...

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Mestre Marçal, o meio de uma dinastia.

Nilton Delfino Marçal, nasceu em um berço que não era repleto de ouro ou jóias, não descendia da aristocracia carioca, contudo não há de se negar que possuiu um berço esplendido. Nasceu no ano de 1930 no carioquíssimo bairro de Ramos dando continuidade a uma verdadeira dinastia no samba.
Filho de Armando Vieira Marçal, que ao lado de Alcebíades Barcellos, o Bide, ajudou a consagrar a nova maneira de se fazer e cantar samba do Estácio, Mestre Marçal se mostrou um verdadeiro coringa em matéria de samba.
Poucos comandavam com tanta maestria baterias de escola de samba como ele, com suas afinações de instrumentos bastante particulares, como comprovado em seu disco “A incrível bateria do Mestre Marçal” (1988), disco em que gravou com bateria comandada por ele tocando o fino dos sambas-de-enredo. Sua historia com as escolas de samba teve inicio na escola Recreio de Ramos, onde começou na ala de tamborins. Seguiu sua trajetória de sucesso indo para a Unidos da Capela, Império Serrano e por fim Portela escola na qual comandou por 20 anos a bateria, saindo nos anos 80 após desentendimentos com o então presidente Carlinhos Maracanã..
Mas Marçal não se contentou com sua trajetória de mestre de bateria, seguindo também para uma carreira, não menos brilhante, de cantor. Nesta, resgatava sambas históricos da dupla Bide e Marçal, como em “Não Diga a Ela Minha Residência”, passando por outra dupla, esta mais contemporânea, na linda melodia de “Desalento”, de Chico Buarque e Vinicius de Moraes, chegando à geração do Pagode (entende-se a geração Cacique de Ramos, protagonizada pelo Grupo Fundo de Quintal e Zeca Pagodinho, e não o neo-pagode, gênero introduzido à força pela mídia no contexto do samba, mas mais uma vez, isso é outra discussão), com a gravação da irônica “Até de Avião”, dos irmãos Arlindo Cruz e Acyr Marques, e Luiz Carlos da Vila.
Outra virtude sua eram as frases sempre fascinantes como: “quem muito procura, quando acha não reconhece” e “não me interessa o preço da banha, eu quero é comer engordurado”. Quando lhe perguntavam como andava, respondia de bate-pronto, “vou comendo pela beirada enquanto o meio esfria”.
Para encerrar o papo sobre o Mestre Marçal, deixo um recado gravado por ele em seu LP "Senti Firmeza", gravadora Barclay/Polygram, no ano de 1986. A faixa, intitulada "Aos Novos Compositores", do trio Arlindo Cruz, Acyr Marques e Chiquinho Virgula, manda um recado à nova geração de compositores, que será sempre responsável por dar sequência à tradição legada pelos velhos bambas, mostrando que a raiz do samba continua dando frutos em profusão.

"Mil perdões pelo meu senso
De criticar
Mas existo, logo penso
E pensando vou falar
Aos novos compositores
Promissores, empolgados
Reconheço alguns valores
Realmente inspirados
Mas tem gente forçando barra
Gente querendo inventar
Fazendo samba na marra
Sem ligar pra criação
Dessa gente eu gostaria de atenção
Pois nessa terra de ninguém
O samba se mantém
Porque mantém a tradição
Ôôô estou querendo criticar pra construir
Pra não deixar quem é do contra criticar
Pra acabar com o argumento de quem diz
Que o samba não frutificou, só tem raiz
Vamos escrever ouvindo a voz do coração
Deixar fluir a verdadeira inspiração
E assim realmente criar
Para continuar o que nos ensinou, velhos bambas
Só assim, sem ter o que falar
Eles vão se curvar, vão cantar e tocar novos sambas"

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